Década de 90 em Palmas: Vinil, açougue, cartas e Rock'n Roll

Gilberto Couto. Foto: Tony Ribeiro
O blog Inforock está com uma missão de resgatar algumas partes importantes da história do cenário do Rock tocantinense. Para iniciar esse resgate, conversamos com o Gilberto Couto que nos deu alguns recortes de lembranças que viveu e sobre a sua banda na década de 90  que tocou em um dos primeiros eventos de Rock de Palmas/TO. Confira a entrevista a seguir:

Inforock:Poderia me contar um pouco sobre os seus primeiros contatos com o Rock?

 Gilberto: O meu primeiro contato, ou seja, a primeira vez que ouvi, devia ter entre 15 a 16 anos, morava em Uberlândia. Conheci um cara chamado Sandro que era louco em Venom, Sepultura  e quando fui na casa dele, me aplicou em algumas coisas, aí começou a porra toda. Comecei a comprar vinil, na época era do cassete e vinil, ouvia muito  Iron Maiden  e essas coisas.

Em meados de 1989, meus pais mudaram para cá (Palmas/TO), me lembro que tava rolando o Rock'n Rio, Faith No More, álbum EPIC. Cheguei aqui e não tinha nada, só mato, aí foi quando conheci o Jorge, trabalhava em um açougue com uma legião de seguidores, ficamos amigos e fim de semana reuníamos na 41, açougue abandonado do tio dele. Aí que tudo começou!

Arquivo pessoal do Gilberto Couto


Inforock: Como foram os primeiros eventos de rock que você participou aqui no Tocantins? Qual (is) deles foi um divisor de águas do cenário do rock tocantinense?

Gilberto: Bom como não tinha nada na cidade do gênero, cada um saía em suas bikes para os eventos da mais nova capital do Estado. Lembro do moinho de vento, local de eventos dos playboys da cidade, se assim pode ser chamado, sempre carregando vinil do Sepultura pra rolar a faixa 02 ( Inner Self) e sermos expulsos do evento. Era tanta cadeira que usava, que sempre éramos tachados como drogados.

Até que abriram a primeira boate da cidade que se chamava Signus ( Próximo ao antigo Cartório Sagramor) , onde cabeludo não podia entrar. Era na época que raspava a cabeça dos lados e lá dentro tirava o boné. Cabelo caía e o dono da boate xingava os seguranças porque estavam deixando cabeludo entrar!

Muita gente acha que os anos 90 eram uma maravilha, as bandas da época sim, mas a cena, principalmente aqui, não era! Foi até 1993, conhecemos o Lauro e o Luciano. Lauro era um cara de pouca conversa, já antigo na cena de Goiânia. Através dele, comecei a ouvir bandas extremas que até hoje ouço e compro CDs,Sore Throat, Anal Cunt ,Doom e outras.

Arquivo pessoal do Gilberto Couto


Daí tivemos a ideia de formar uma banda, eu, na época , vendi uma monark e troquei em uma bateria. O lesado do Sosthenes, Regis, Jorge. A formação era com o Jorge no baixo, Regis no vocal, Sosthenes na guitarra e eu na bateria.  Na época era só por meio de cartas, não tinha acesso a e-mail, essas coisas de hoje. Como o Jorge sempre escrevia muito  e tinha muitos contatos, resolveu fazer o 1º Mosh Festival.

Sergio "Cabeleira", que na época tinha o programa Clip Tins, queria fazer cobertura do evento, aí como o Jorge e muito menos eu, queria aparecer, foi o Sosthenes e o Régis lá falar sobre o evento.
Era abertura com a Killer Buther, banda nossa e o CFC de Goiânia, do Rodolfo, atrás da Celtins, 1 kg de alimento e 5 reais. O evento até que na época foi bom, até a mãe do Sosthenes chegar e tomar a guitarra  e acabar com o evento, porque a única guitarra era a dele que a mãe falava que era de Jesus, como aconteceu no segundo evento organizado pelo Johnson em cima de um caminhão, o primeiro Rock na Rua em meados de 1993.

Confira a entrevista sobre o evento:



Na verdade, a única cena que o Sosthenes fez parte, ele e o lesado do Doda, era um circo! Que os palhaços eram eles mesmos!
Como tem nos dias de hoje, aqueles pontinhos pretos, que fica perambulando pelas ruas, vestidos de preto, revoltado com a mamãe.
O gordo é o cara da cena no Estado! Nego me falou tempo desse! Cara, porque você não baixa o som!
É uma maneira de ajudar a cena, isso pra quem gosta e não por modismos, porque hoje em dia qualquer bunda suja é rockeiro, não importa se é estilo de vida, é só vestir de preto, tomar pinga e ficar em porta de show!!!
Killer Buther (TO). Foto: Arquivo pessoal do Gilberto Couto


Inforock: Tem algum evento que você destaca na década de 90? 

Gilberto: Rolou show do Rat Salad, banda de Goiânia, de Crossover, na época da Graciosa, que deu só 4 pessoas na frente do palco!!!

Inforock: A cena rocker na década dos anos 90 tinha muitas divisões como a galera do Punk e a dos metaleiros?

Gilberto : Bom, sobre a cena punk e os metaleiros? O crossover acabou com isso! Na verdade que naquela época era mais tachados como vagabundos e etc...
Hoje tem o Porkão aqui que promove muita coisa, como recentemente rolou Brujeria e nego acha ruim de pagar pra ver!

Inforock: Você tinha contato com outras bandas do estado e/ou fora dele?

Gilberto: Fábio Eugênio de Recife trouxe o Fear of God lá, Oliver da Paraíba, Anildo do Malevolent Creator, Aurélio do HC 137, Phul do Makacongs 2009, Tulio DFC, Julio do FMI Core, barba e Gilsão do Holder e outros!
Até hoje tenho contatos com o Extreme Noise Terror, Murder Junkies, última banda que G.G. Allin tocou, que sou fã, caras do Anal Cunt, muita gente que compro CDs e só olhar pra eles hoje e ver, um é pastor, outro é não sei o quê!

Inforock: Conte um pouco sobre o surgimento e o intuito da banda que você participou e sobre as outras pioneiras.

Gilberto: Killer Buther começou a partir de assistir o VHS do Napalm Death e do S.O.D., depois apareceu Infecto Feto, infelizmente o Killer Butcher acabou depois do show que rolou em Porto Nacional que foi organizado pelo Tércio. Por conflitos internos que não passou de uma palhaçada até arrumarem uma briga com a gangue local de lá ( Buracão), foi onde o Sosthenes perdeu seu boné peruca do The Mist e virou crente de vez, cara gay!


Inforock: A galera do rock se reunia na casa de alguém em específico? trocavam fitas ou vinis? Conte um pouco sobre a interação naquela época.

Gilberto: Sim, como já comentei, reuníamos em um porão, antigo açougue do tio do Jorge, onde bebíamos muito e ouvíamos as coisas novas até a mãe do Sosthenes chegar com uma bíblia e arrancar ele de lá pela orelha!!!

Inforock: O que mais você sente falta do rock feito aqui nos anos 90?

Gilberto: Não sinto muita falta de nada, pra falar que não sinto falta, sinto das bandas que sumiram dessa época que com certeza os clássicos são dos anos 90, que até hoje compro coisas dessa época.

Foto: Tony Ribeiro

Inforock: Obrigada pela entrevista, se quiser falar mais alguma coisa, o espaço é teu!

Gilberto: Queria deixar agradecimentos a Patricia pela iniciativa, ao Tony Fortunato por querer fazer parte do projeto, ao meu amigo e irmão Jander Tattoo, um cara que admiro não pelo profissionalismo e sim pelo cara que é!
 E os que não gostam ou não vão com minha cara, tenho um recado! Eu sou um cara que escuta GG Allin! Cara que escuta GG Allin é um cara desprovido de sentimentos! Um cara que não veio ao mundo para agradar ninguém! Então vá se fuder!

2 comentários:

  1. Da hora a entrevista...
    Tenho certeza de que foi uma fase inesquecível pra muita gente...
    Vlw maninho.

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  2. Massa demais, Gilberto! Ficou muito legal! Parabéns pelas lembranças!!!

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